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Entrevista de Nuno Amieiro a Guardiola: Mecanismos

Publicada por João Henrique T.L.C sábado, 3 de abril de 2010

Entrevista realizada e analisada por Nuno Amieiro, Licenciado em Desporto pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.
Barcelona, 14 de Abril de 2008.

Obs: Leiam o “ee” com o som de “é”.

Como ponto prévio importa perceber que o Guardiola ee completamente "obcecado" com o ter a bola, com o como a circular para criar desequilíbrios no adversário, com o como fazer chegar à bola aos extremos e deles tirar o Maximo proveito. Toda a organização ee pensada em função de como querer atacar e o como atacar ee muito influenciado pela paixão que tem em jogar com extremos.

Facilmente se percebem inúmeras semelhanças com a forma de pensar o jogo de Cruyff, treinador que ele não esconde ser a sua maior influencia. Com uma diferença curiosa: Guardiola refere que tem também algumas preocupações com o momento defensivo (fecho da equipe, basculacoes, coberturas etc...), ao contrario de Cruyff que apenas se preocupava com a organização ofensiva, que não treinava sequer os aspectos defensivos. De qualquer modo, diz, o importante ee atacar pensando já na possibilidade de perder a bola. Dai as suas preocupações em termos de jogo posicional com o equilíbrio defensivo nos primeiros momentos de construção, com as coberturas ofensivas no ultimo terço, com o ter sempre muita gente nos espaços interiores etc.

Vou tentar agora descrever uma das idéias mais curiosas e interessantes do Guardiola. Alias, foi o te-la ouvido por terceiros que me fez ir a Barcelona conversar com ele! Porque? Porque constatar uma serie de treinadores espanhóis encantados com uma preleção sua onde supostamente defende a idéia de, em construção, o jogador em posse conduzir a bola para de seguida jogar no homem livre - repetindo-se esta ação numa espécie de "efeito domino" - ee, à primeira vista, inquietante, estranho... sobretudo contrastante com a idéia que temos do estilo de jogar de Guardiola e do Barca de Cruyff!

Foi esta aparente contradição que serviu de "motor de arranque" para a nossa conversa...

A idéia base ee a seguinte: como principio fundamental para iniciar e/ou dar continuidade a construção Guardiola quer o PROVOCAR COM BOLA PARA APROVEITAR O HOMEM LIVRE. Entende-se provocar no sentido de atacar o espaço. E esta ação enquanto primeira ação dos defesas centrais em primeiros momentos de construção ee muito importante para ele (perceba-se que a ação enquanto principio de jogo não se esgota aqui, mas ee neste momento onde ela assume para ele maior relevância). Parta-se do principio que a linha defensiva tem superioridade numérica sobre a linha avançada adversária quando a bola esta no GR - imagine-se que o adversário esta estruturado em 1.4.2.3.1 frente ao 1.4.3.3 do Guardiola. A equipe faz campo grande com 3 avançados bem dentro do ultimo terço, o triangulo de 1/2 campo bem subido, as centrais abertos pelos "bicos" da área e os laterais totalmente abertos e profundos, quase sobra à linha do meio campo. A bola entra num central e estes estarão normalmente em 2x1 com PL adversário. Eles podem ir trocando a bola entre eles e inclusivamente com os laterais e ir tentando subir um pouco, isso não ee relevante para o caso (tal como a possibilidade de nessa circulação inicial aparecer um homem do triangulo livre entre linhas adversárias pois ee obvio que nesse caso a bola de entrar imediatamente). Como a partida a equipe adversária esta fechada e ee difícil encontrar homem livre, aquilo que vai acontecer ee que um central vai atacar o espaço em condução para com isso atrair sobre si um adversário. Se for o PL adversário, ele passara ao outro central e ele atacara o espaço já com o PL batido; se o adversário que vier for um médio criou-se um homem livre que, ao receber a bola vai gerar instabilidade no bloco adversário. A partir dai tendencialmente será mais fácil "tocar" ou, se houver espaço livre pode repetir-se a mesma lógica de "provocar para atrair", pensando sempre, sucessivamente, em termos de criar situações de 2x1... Para alem disso, com adversários de qualidade, se a bola entra no interior da equipe, a equipe fecha os espaços interiores e isso permite-nos aproveitar os extremos com espaço. Portanto, aquilo que se pretende ee que os centrais saiam a jogar por dentro. Guardiola não quer que se saia a jogar por fora, pelos laterais, na medida em que essas zonas são zonas onde o adversário vai pressionar (a entrada da bola no lateral ee muitas vezes indicador de pressão) e onde ee mais fácil pressionar. Mas ele adverte: "Gastem dinheiro com os defesas, sobretudo com os centrais!!". Tem consciência de que os defesas tem de ser muito bons em posse. Transportando esta idéia para a formação, muito cuidado com o perfil de defesa que define como modelo de prospecção e formação.

Outro aspecto interessante que ele não se cansa de salientar ee que quem tem a bola (e julgo também que o mesmo se aplica aqueles que a podem receber) deve centrar a sua atenção nos adversários próximos, isto ee, deve estar preocupado em ver os adversários e não tanto em procurar os colegas... esses ele sabe onde estão!! Dai que ele tenha idéias concretas, perfeitamente definidas para o posicionamento dos jogadores à medida que o jogo se vai desenvolvendo... jogo posicional, claramente outra "obsessão" sua!

Dois pormenores que Guardiola salienta: a linha defensiva deve equilibrar a iniciativa do central, sobretudo o lateral desse lado, fechando por dentro; a equipe pode sair por fora se o lateral receber na frente do seu adversário direto.

Ainda no que diz respeito à lógica onde se alicerça a construção de situações de finalização, uma segunda idéia muito querida para Guardiola prende-se com o chamado TERCEIRO HOMEM. Segundo ele, Cruyff era quase que obcecado com esta idéia que acaba por ser uma dinâmica comportamental relativamente simples mas que também ee difícil de contrariar por parte de quem defende.

Tal como referi, a idéia simples: quem esta em posição avançada em relação à bola pede para dar de caras ... com quem esta de frente para o jogo.

Por exemplo, o pivô esta em posse e PL pede a bola não com a intenção de ficar com ela e rodar, mas para dar a um dos interiores. No fundo, trata-se de olhar para quem esta de costas para o jogo (fruto da posição relativa face a bola) como "segundo pivôs" ou se quisermos "estações de ligação", "pontes" com colegas que estão de frente para o jogo, muitas vezes "pontes" para o homem livre que se cria com a dinâmica do "provocar para atrair".

Tanto o principio subjacente ao "homem livre" como o principio subjacente ao "terceiro homem" (que, muitas vezes, acabam por se complementar), parece-me acabam por ser dinâmicas, ou melhor, subdinamicas que procuram criar as melhores condições de jogo aos apaixonados pelos extremos: tentam criar condições facilitadoras que, jogando apoiado desde trás, jogando triangulado, "tocando", se consiga levar a bola dentro para que depois vá para fora na direção dos extremos bem abertos e em ponta, recebendo com algum espaço e a encarar a baliza adversária de frente.

Guardiola, como já referi, da enorme importância ao jogo posicional da equipe. Em cada momento de organização ofensiva, e em função da posição da bola, cada jogador tem que saber como se posicionar, em que espaços devem jogar. Entenda-se a posição de um jogador não um ponto do espaço, mas uma área desse espaço.

Quer sempre posicionamentos diagonais em relação à bola, laterais e extremos em linhas diferentes, sempre gente bem aberta e considera muito importante o "timing" de saída do jogador quando funcionar como "ponte" para o terceiro homem, isto ee, quando vem pedir para dar de caras.

Não gosta de trocas posicionais. Ainda que face às características de um ou outro jogador possa te-las em conta (deu o exemplo de Henry no Barca que pode alternar PL/Ext), não gosta mesmo nada de trocas. Porque o jogador de futebol normalmente não ee muito inteligente e porque as trocas podem ajudar a inverter uma lógica que para ele ee crucial: a equipe deve ter sempre muita gente por dentro e alguma gente por fora. Para que? Para "tocar", para aparecer na área de frente e para defender se houver perda da posse. Por isso não gosta absolutamente nada de entrada dos médios interiores no espaço do extremo quando esta baixa. Eles devem jogar por dentro para "tocar", para fazer coberturas ofensivas aos extremos e para atacarem a área. Também não gosta que estes baixem a pedir bola aos defesas (ficando com toda a equipe adversária entre a bola e a baliza). No mínimo, eles devem procurar receber entre a linha avançada e a linha media adversária. E diz que eles devem ser um pouco como os extremos: pacientes. E faz sentido. A dinâmica desejada pressupõe que os médios surjam como "homem livre" ou "terceiro homem"!

E se ha jogador que, para Guardiola, deve ser muito posicional ee o pivô, a sua posição enquanto jogador. Nem a simples saída em profundidade para que um médio venha receber no espaço criado lhe agrada. Muito posicional, sempre a oferecer-se, sempre a procurar posicionamentos diagonais em relação à bola. Quer os extremos sempre abertos, ainda que em determinados momentos possam procurar posições interiores. Se isso acontecer normalmente ee o lateral que vai garantir a máxima largura. O principio ee simples: sempre alguém por fora, bem aberto; sempre muita gente por dentro.

O simples fato de a bola chegar a um extremo não significa que o lado contrario tenha que fechar. Muitas vezes tem ee que continuar bem aberto!

Depende do seguimento que se da à bola: a linha de fundo ou espaços interiores.

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA:

Maciel, J. (2008). A(In)(Corpo)r(Ação) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO) ANTROPOSOCIALTOTAL - Futebol um Fenômeno AntropoSocialTotal, que primeiro se estranha e depois se entranha e ... logo, logo, ganha-se! Porto: J. Maciel. Dissertação de Licenciatura apresentada a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

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